Cantinho de uma mente perturbada...: Abril 2011

Cantinho de uma mente perturbada...

Minha foto
Nome:



[[[[CRONCH!]]]]


Culture Rangers Revolutions - EU SOU O RANGER AZUL!!!

Escrevinhadores - Crônicas do Cotidiano
Orkut
MySpace
MySpace Music (EM CONSTRUÇÃO)

Powered by Blogger

domingo, abril 17, 2011

Sobre meninos e demônios...

Eu tinha 9 anos. Havia acabado de me mudar de Maceió para São Paulo para acompanhar meu pai, que estava fazendo doutorado na PUC e ficaria longos 4 anos – tempo demais para uma família ficar afastada.
A terra me causou muitas estranhezas, era tudo muito grande, perigoso e opressor pra um garotinho que vivia livre, leve e solto na pequena, fresca, provinciana e (então) segura Maceió. Mas nada que não se esperasse adaptação no tempo apropriado.
Dois dias depois da chegada, meu primeiro dia de aula no Colégio São Domingos. Cheguei no meio do segundo bimestre, literalmente “de para-quedas”. Mas despertei curiosidade geral no colégio – uma menina que estava sentada na carteira em que fui posto pela “tia” imediatamente me cutucou apenas para pedir “FALA”. Logo viriam aqueles que queria “corrigir a fala esquisita”...
No Edifício Ana Capri, não foi muito diferente, mas foi mais fácil me enturmar. Por ser mais velho que a maioria dos garotos e mais centrado (além de relativamente bem-educado – mainha é osso duro de roer, gente!), virei logo queridinho das mães e acabei sendo visto meio que como irmão mais velho da molecada. Mas não raro, a estranheza reinava na relação. Como explicar um nordestino que não é filho de porteiro ou de zelador? Com pais que aparentemente não trabalhavam (tanto painho como mainha estavam estudando em Sampa, e só!), e ainda por cima ALAGOANO? Era 1993, o Brasil mal havia colocado Fernando Collor para fora da presidência. Embora em níveis relativamente leves, o preconceito era patente e ficava exposto em qualquer oportunidade.
Em casa, ao perceberem que algo andava errado, meus pais trataram de “resolver o problema”... castrando os filhos para evitar confrontos. O resultado foi que o garoto tímido, mas de personalidade vibrante se tornou apenas um garoto retraído e sem ânimo em questão de um ano e meio.
Meu pai conseguiu pagar muitas matérias em dois anos e acabou ficando livre pra voltar a Maceió, retornando a Sampa em determinados períodos. Então, nossa estadia de quatro anos foi encurtada. A volta parecia até um sonho... parecia...
Retornar ao Colégio Santíssimo Sacramento não foi nenhum mar de rosas. Acabei numa turma que não era a turma onde cresci. E logo me vi isolado por todos. Meu sotaque alagoano se perdeu na temporada paulistana, e isso não caiu bem. Ficou óbvio que eu tinha – tenho, ainda – vocabulário melhor que toda a turma, pelo simples fato de eu ler muito, e isso também não caiu bem. Meu boletim no primeiro bimestre veio com cinco notas 10 pra oito matérias, e foi aí que a casa caiu pra mim. Ser tímido ajudou bem menos, acabei levando a pecha de “metido”. Era gordinho, o que nem chamava tanto a atenção, porque havia pessoas maiores que eu e eu emagreci bastante com os anos – ainda assim, vez por outra, alguma alma mais atenta reparava para os pneus sobressalentes (neste ponto, era muito pior em casa!)... Mas o pior foi eu cometer o crime dos crimes: não gostar de futebol. Virei imediatamente o “viado” da sala.
De 1995 a 2001, vivi o inferno na terra. Era acossado em todos os momentos e instantes, era alvo de piadas de todos os tipos, vivia de alvo de lascas de giz, bolas de papel e unhas roídas... tempos maravilhosos, enfim.
Em casa, eu era simplesmente podado e repreendido até não poder mais. E curiosamente, cobrado pra voltar a ser o menino alegre e cheio de vida (que eles mataram com tantas podas). Até hoje, me lembro de uma frase linda que meu velho soltou pra mim: “se o mundo inteiro diz que você está errado, então, provavelmente estão certos.” A partir desta pérola, vi que estava, literalmente, sozinho nesta. Todo final de semestre de 1995 a 1997, eu praticamente implorei pra ser transferido de colégio, sem sucesso – o que acabou resultando em uma literal desistência de tudo. Quando o Colégio Pontual abriu, eu vi uma nova chance para mim de começar de novo... chance novamente negada. O colégio abriu em 2001, justamente no último ano do colégio, o que serviu de desculpa para a negação dos genitores – “já que está terminando, vai terminar onde começou!”.
Até bem pouco tempo atrás, quem me perguntava qual foi o dia mais feliz da minha vida, eu respondi sem titubear: o dia em que eu pisei fora da Mansão Farias em dezembro de 2001 – e deixei para trás a pocaria de festa de formatura (tava muito ruim, mesmo!) e uma merda de vida escolar.
Entrei pra faculdade e me concentrei em me reinventar. Não consegui voltar a ser o mesmo garoto que chegou extremamente ingênuo e cheio de vida em Sampa, mas ao menos, consegui chegar a ser algo próximo de “normal”. Ainda sou extremamente tímido, é difícil conversar comigo de cara, pois eu provavelmente me fecharei. Mas eu consigo me abrir com o tempo e a confiança advinda dele. Mas pra que negar? No fundo, ainda ficou uma paranoia... se vejo um grupo rindo perto de mim, logo imagino que eu que sou o assunto da conversa; quando encontro com alguém daquele passado infeliz, me transformo imediatamente num ser desconhecido e raivoso, frequentemente assustando quem estiver comigo; tenho muitos pesadelos com o colégio, muitos MESMO – mas vivo aparecendo por lá pra me testar, pra me desafiar e me provar capaz de enfrentar meus fantasmas de frente.
Por que estou falando sobre isso? Bem, primeiro porque nunca falei sobre bullying com ninguém – nem com minha sombra. São muitos anos carregando este tipo de coisa sozinho. E o caso da escola no Rio de Janeiro reacendeu tudo em mim novamente. Não vou mentir, eu ME IDENTIFIQUEI com o assassino. Aliás, me identifiquei também com os garotos de Columbine. Oras, quantas vezes eu não tive vontade de entrar no Sacramento com uma metralhadora e matar todos aqueles que me atormentaram e fizeram da minha vida um inferno? Mas a questão é que meu lado pacifista sempre foi mais forte, portanto, não creio que faria este tipo de loucura alguma vez na vida. Mas não há mentira – eu estive lá, eu senti isso. Também quis muito ser Carrie White.
Outro caso que tocou fundo em mim foi o do australiano Casey Heynes (conhecido como “Zangief Kid”). O garoto fez o que muitos sonham em fazer e nunca o fizeram – e ganhou o apoio de todo o mundo! Se o tormento dele parou, só o tempo dirá, mas é certo que o pivete do vídeo vai pensar MUITO antes de mexer com ele de novo. Eu reagi, algumas vezes e, infelizmente, embora sempre tenha levado a melhor fisicamente (as vantagens de ser gordinho estão em ser mais forte...), o pesadelo simplesmente NÃO PASSOU. Abrandava por um tempo, mas voltava ao mesmo ponto em questão de dias, sem ninguém para me ajudar ou acudir. Rezo para que o caso de Casey seja diferente.
Este ano, completo uma década de formatura no colégio. Jamais lembraria se não fosse a enxurrada de falsos da minha extinta turma atrás de mim para marcar uma festa... festa PARA QUÊ? Não quero olhar a cara de quase nenhum deles novamente na minha vida, como é que descobrem meu orkut, msn e o número do meu celular?
“E quanto a Sampa, você dará uma nova chance?” – não digo “nunca”, mas não vejo a resposta como sendo outra que “NÃO” em muito tempo. São Paulo é uma cidade linda, cheia de atrações etc., etc. e tal... mas para TURISMO. Apesar de tudo o que ocorreu por lá, fiz grandes amizades, também, e quero muito rever todos sempre, o que é uma garantia de que voltarei a Sampa para alguns dias e que espero visitas em Maceió ou onde eu estiver (não ficarei aqui pra sempre, gente!). Mas morar? Não pretendo voltar a morar ali sob qualquer hipótese.
“E quanto à 'turma E' do Colégio Sacramento?” Com raríssimas exceções, quero francamente que o resto MORRA. Ainda dançarei alguma coreografia do É O Tchan! em seus túmulos como vingança pessoal e intransferível. Se morrer logo não for possível, que ao menos esqueçam da minha existência e sumam. Foi muito difícil conseguir fechar as feridas que me deixaram, agora preciso curá-las. Com certeza, não será com essa reca aparecendo na minha frente.